Quando a arquibancada tenta jogar por mim

Crianças jogam futebol enquanto pais demonstram ansiedade e pressão atrás da arquibancada, refletindo o impacto emocional no esporte infantil.


O campo é o seu lugar.
É ali que você corre, tenta, erra, aprende, sonha.

A arquibancada é o lugar da torcida.
É onde moram os aplausos, os sorrisos, os olhos cheios de orgulho.

Mas às vezes… alguns torcedores se esquecem disso.
Eles passam a agir como se estivessem dentro do jogo.
As palmas viram ordens.
Os gritos viram comandos.
E aquilo que deveria ficar guardado dentro do adulto escapa pela boca.

Essas vozes se misturam com as orientações do treinador.
E dentro da sua cabeça acontece um nó.

São vozes importantes. Vozes que você ama.
Por isso tocam tão fundo no seu coração.
Mas, durante o jogo, elas deveriam soar apenas para elogiar, encorajar, proteger.

Quando o treinador pede uma coisa e alguém da família grita outra,
o coração acelera,
a perna trava,
a cabeça confunde.

Aqui a gente vai conversar sobre algo muito importante
como proteger o seu brilho dentro de campo
e aprender a filtrar o que seus ouvidos escutam.


O barulho que mora dentro da minha cabeça

Quando a arquibancada tenta jogar por mim, a minhs mente fica sem norte.
É como quando muitos adultos tentam mandar ao mesmo tempo.

Dentro do campo, eu posso sentir:

Confusão
“Se eu ouvir meu pai, o professor briga. Se eu ouvir o professor, meu pai fica triste.”

Pressão
O medo de errar fica maior que a vontade de tentar algo novo.

Tristeza
Às vezes, um grito dói mais do que cair no gramado.

E isso não é frescura.
Isso é sentimento.

Aqui, quem fala sou eu, a autora, que vive o futebol infantil de perto.
Eu vejo muitas crianças ficarem tristes, fechadas ou irritadas quando o barulho é intenso.
Vejo pais orientando seus filhos o tempo todo.
Vejo adultos dizendo o que o filho do outro deveria fazer.
Vejo palavras duras, constrangimentos, xingamentos ao juiz.
Vejo a torcida adversária desrespeitando crianças pequenas.

Tudo isso chega no coração de quem ainda está aprendendo a ser grande.


Quem faz o quê no jogo

Para um time funcionar, cada um tem seu papel.

Pense numa banda.
Se todo mundo tocar uma música diferente, vira bagunça.

O treinador é como o maestro.
Ele estuda, planeja e sabe o que você precisa aprender agora.

Os pais são o combustível.
Eles existem para torcer, abraçar, cuidar, levar água, sorrir depois do jogo.

Dentro do campo, quem te orienta é o professor.
Fora dele, quem te fortalece são seus pais.

Quando esses papéis se misturam, o jogo fica pesado para quem ainda está crescendo.


A minha bolha de proteção dentro do campo

Quando você entrar em campo, crie uma bolha invisível.

Dentro dela só entram:
o apito
a bola
a voz do seu treinador
e o seu próprio coração

O resto vira barulho de fundo.

Você pode aprender a filtrar o que ouve.
Dê atenção às orientações do seu treinador.
Escute seus companheiros de equipe.
E deixe que os gritos que não ajudam passem como vento.

Você não precisa obedecer comandos que não vêm de quem está dentro do jogo com você.


Sobre errar, perder e continuar

Alguns adultos acreditam que, se não falarem, a criança não vai render.
Esquecem que o crescimento acontece naturalmente.

Errar é parte do caminho.
Perder também.

Nós não crescemos apenas quando agradamos e ganhamos.
Crescemos muito quando perdemos tambem.
Os valores são diferentes, mas os aprendizados são igualmente valiosos.

O jogo ensina em todas as situações.
Mas só ensina de verdade quando a criança se sente segura.

Aqui no Pequeno Atleta, a gente sempre lembra que a criança vem antes do atleta.
Se você quer aprofundar esse olhar, leia A Criança Antes do Atleta.


O que eu posso pedir aos meus pais

Se algo te machuca, você pode falar com carinho.

Num momento calmo, diga algo simples:

“Pai, mãe, eu amo que vocês venham me ver.
Mas quando vocês gritam instruções, eu fico confuso e não consigo jogar bem.
Vocês podem só torcer por mim?”

Você também pode pedir:

“Quando vocês falam comigo alto, eu fico com vergonha.”
“Quando falam com meus colegas, eles ficam tristes.”
“Eu jogo melhor quando escuto só o meu treinador.”

Falar com respeito também é um jeito de ser forte.


Um recado para quem torce por mim

Seus filhos crescem rápido.

Em pouco tempo, muitos de vocês não poderão mais assistir aos treinos.
O campo deixará de ser um lugar tão aberto.
E esse tempo de agora não volta.

Não gastem essa fase preciosa com tensão.
Gastem com orgulho.
Com elogios.
Com presença leve.

O jogo não é de vocês.
É deles.

O barulho que constrói é o que valoriza.
O que machuca atrapalha.

Seu filho não precisa de um técnico na arquibancada.
Ele precisa de um porto seguro.


Um recado para quem me ensina

Vocês têm um papel essencial.

Peçam ajuda à arquibancada.
Protejam o ambiente do jogo.
Expliquem que o excesso de barulho impede que as crianças ouçam vocês.

Educar pais também é formar atletas.
Quando o adulto aprende, a criança floresce.


O campo é o lugar da criança.
A arquibancada é o lugar do amor.

Quando cada um ocupa o seu espaço,
o jogo vira aprendizado,
o erro vira caminho,
e o esporte volta a ser o que sempre deveria ser

um lugar de alegria.

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